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Quem é o brasileiro que NÃO investe?

Por:
11/06/2019

É impressionante o perfil e a quantidade de brasileiros que ainda desconhecem a importância de fazer um bom investimento. A deficiência em nossa educação financeira ficou gritante no novo Raio X do Investidor edição 2019 divulgado pela ANBIMA (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), o que reforça a necessidade do trabalho educacional propostos por páginas como o Mais Retorno no intuito de ajudar aqueles que estão iniciando nesse mundo das finanças.

Antes de mais nada, cabe notar que o resultado fica menos impressionante quando se leva em conta o perfil do povo brasileiro. Ainda somos um país considerado de renda média e com baixa propensão ao ensino/estudo. De fato, o rendimento domiciliar per capita no Brasil foi de apenas R$ 1.373 no fim de 2018 (PNAD-IBGE), e bastante desigual ao longo de todo território.

Além disso o endividamento das famílias brasileiras supera os 40% (Banco Central), o que dificulta o acúmulo de poupança por parte da população. Por fim, não precisamos nem destacar o baixo nível de educação básica da população, que segue apresentando resultados pífios em exames internacionais, como o caso do PISA.

Esse é o grande desafio: conseguir melhorar a saúde financeira do máximo possível de brasileiros, mesmo que em uma situação financeira bastante adversa. Mais do que isso, melhorar a qualidade dos investimentos feitos por aqueles que até conseguem economizar, mas “dormem” em produtos de baixa qualidade como a clássica Poupança.

Será que você se encaixa em alguma dessas situações?

O resultado da pesquisa

O resultado da pesquisa

A ANBIMA atualizou sua pesquisa anual que busca traçar o perfil do investidor brasileiro. Nesta edição de 2019 foi pesquisado o perfil do comportamento do investidor ao longo de 2018, entrevistando 3.452 pessoas de Norte a Sul do país, em 152 municípios e que representam cerca de 95 milhões de habitantes. Ela captou pessoas com mais de 16 anos, das classes A, B e C, ocupadas ou desocupadas. Abaixo vamos comentar alguns resultados interessantes.

Primeiro vamos destacar que temos cerca de 58% de pessoas que declararam não investir, próximo do resultado de 2017 (59%, divulgado em 2018), mas com uma composição diferente, conforme o gráfico abaixo.

Brasileiros que não investem

O grande problema é que esses brasileiros não conseguem guardar recursos, além do fato de não conhecerem os produtos financeiros dos quais podem se beneficiar. E isso fica ainda mais evidente quando olhamos os motivos pelos quais o brasileiro não investe.

Na tabela abaixo é possível ver que a renda é ainda o grande problema. Mais da metade daqueles brasileiros que foram entrevistados e afirmaram que não investiram em 2018 relataram que a falta de dinheiro foi o maior motivo de tal comportamento.

Composição dos motivos para o não investimentos

Se juntarmos a falta de dinheiro, o desemprego e outros gastos é possível agregar os dados em um grupo chamado Condições Financeiras e que reúne os motivos de não investimento que atingiram 80% daqueles que passaram 2018 em branco, restando 20% para o desinteresse e outras restrições de natureza técnica.

Esse resultado é importante pois está fundamentalmente relacionado com a conjuntura da economia brasileira, que enfrentou dura crise entre 2014 e 2016 e que desde então não recuperou seu vigor, com desemprego ainda elevado e famílias com grandes dificuldades financeiras.

Será que quando o “jogo virar” e o país voltar para os trilhos, essas condições ressaltadas como entraves para os investimentos deixarão de existir? Melhora no mercado de trabalho, oportunidades de ganhos salariais e a expansão das empresas e produtos financeiros podem mudar esses cenários nos próximos anos.

Outro ponto que cabe destaque dentre aqueles que não investiram em produtos financeiro em 2018 é o percentual de pessoas que preferiram investir em outras coisas. Dentre esses 6% que preferiram investir em outras coisas a maior motivação é o retorno (59%), conforme o gráfico abaixo.

Composição dos motivos relatados pelas pessoas que investiram

Em relação ao retorno, a opinião e que há a possibilidade de encontrarem um rendimento maior (31%), por ser mais seguro ou garantido (22%), por ser mais rápido (3%) ou por não ter cobrança de taxas (3%).

Talvez isso ressalte um pouco mais o desconhecimento da relação risco e retorno, que vale inclusive para investimentos físicos, como em empresas e outros negócios. É pouco provável que essas pessoas tenham encontrado um investimento (sem ser financeiro) de elevado retorno e baixo risco.

O resultado ressalta um certo conservadorismo bastante forte mesmo dentre aqueles que buscaram guardar dinheiro.


E para 2019?

E para 2019?

Ainda que pintado um cenário ruim em 2018, ao menos nas intenções teremos um 2019 melhor: cerca de 11% pessoas que não investiram em 2018 pretendem o fazer em 2019. Caso a pesquisa reflita bem a população e que essas intenções se concretizem, poderíamos assistir mais de 6 milhões de brasileiros buscando aplicação para seu dinheiro.

O perfil é bastante concentrado, visto que a maioria é composta por homens (52%), com ensino médio (55%) e moram na região Sudeste (47%).

O grande desafio é fazer essas pessoas saírem de investimentos conservadores como a poupança. Pois é, da parcela da população que investe a maioria ainda permanece na poupança (88%), seguido por previdência privada (6%) e só depois títulos privados (5%), fundos de investimentos (4%), títulos públicos (3%), ações (2%) e moedas (2%).

Devemos ter um esforço adicional para esses novos investidores, pois infelizmente ainda há grande desconhecimento, comodismo e informações desencontradas.

Ainda para 2019, curiosamente a obtenção de lucros não é o maior motivos para tal intenção de investimento. A segurança financeira e ter mais recursos para o consumo ainda domina a cabeça do brasileiro. Por outro lado, essa mesma condição financeira é o que mais inibirá o investimento em 2019, conforme já relatamos anteriormente.

Por fim, um resultado que também vale destacar são as fontes de recurso que o brasileiro acredita que irá financiar sua velhice. A despeito de todo o debate da previdência e a exaustiva comunicação dos especialistas mostrando como a pirâmide etária brasileira irá mudar, com muito mais velhos do que jovens e reduzindo a relação de trabalhadores para cada idoso, o brasileiro ainda acredita que poderá viver a velhice de aposentadoria.

Fontes de recursos para a velhice

Aparentemente ainda não caiu a ficha que cada vez mais a previdência será apenas uma fonte complementar, sobretudo para a geração mais nova de trabalhadores. O grande trabalho será conseguir poupar e investir ao longo da vida para assim ter uma aposentadoria digna. Não estou dizendo que a Previdência pública irá acabar, apenas que (como mostram os estudos) novas reformas serão necessárias nas próximas décadas, além do valor médio ser cada vez menor.

É nesse momento que o leitor deve parar para refletir sobre o futuro que ele está planejando.

Conclusão

Olhando todos esses dados fica claro o longo trabalho que há pela frente por parte daqueles que buscam ajudar e “alfabetizar” financeiramente a população, o que é de grande importância, pois cedo ou tarde a conjuntura econômica vai mudar e teremos uma redução do desemprego, aumento da atividade econômica, novo boom nos mercados, o que abre uma grande janela de oportunidade para captar novos investidores, independente do seu tamanho.

Apesar do boom que vivemos desde 2016-2017 em termos de Bolsa, com mais de 1 milhão de CPFs cadastrados, a verdade é que ainda não sentimos os verdadeiros efeitos da retomada da atividade e da redução da incerteza, que quando acontecer, trará uma nova onda de investimento.

Desta forma, é preciso seguir trabalhando na melhora da compreensão dos diversos produtos financeiros que existem no mercado. Há uma grande batalha de comunicação acontecendo no segmento financeiro em que uma parcela de novos investidores está sendo capturada por pessoas que não necessariamente estão buscando ensinar ou indicar o melhor investimento dado o perfil daquele novo investir, e sim apenas tirar ganho de mais um iniciante.

O brasileiro tem dificuldade de guardar dinheiro e quando consegue guardar, investe muito mal. Há uma grande missão civilizatória para mudar esse cenário.

Se você não investiu em 2018 e se sentiu contemplado pela pesquisa, deixe seu comentário!

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Sobre o autor

  • Arthur Lula Mota
  • Economista, já atuou no mercado financeiro e em departamento econômico, com elaboração de cenários macroeconômicos e estudos setoriais. Atualmente é Mestrando em Economia pela Universidade de São Paulo (USP) e dono de um dos maiores sites independentes de economia no Brasil – o Terraço Econômico.

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