Investidores, em geral, analisam suas ações individualmente, comprando ativos com potencial de crescimento e vendendo aqueles com tendência de queda; este comportamento, à primeira vista, faz todo o sentido. Entretanto, um ponto que muitos deixam de observar, a diversificação, é certamente tão ou mais importante que a análise individual dos ativos.

É muito difícil prever se uma ação irá se valorizar no futuro, isto porque cada investidor tem diferentes expectativas sobre um mesmo papel, e são estas expectativas que formam o preço, portanto, descobrir se o valor está abaixo ou acima da quantia justa é algo bastante complicado. Diferentemente do retorno, a relação entre diferentes ativos é mais previsível e estável no tempo. Matematicamente, esta relação é calculada por meio da correlação entre os retornos dos ativos: por exemplo, ativos com correlação igual a 1 tendem a ter retornos muito semelhantes, enquanto ativos com correlação igual a 0 são totalmente independentes.

A grande vantagem de ser possível prever a relação entre diferentes ativos é que com isto é possível, por meio da diversificação, montarmos a chamada carteira eficiente, que nada mais é do que o conjunto de ativos que proporciona o maior retorno possível para determinada volatilidade. Quando uma carteira não está na fronteira eficiente, estamos diante de uma situação em que está se correndo mais risco que o necessário para determinada expectativa de retorno.

TIPOS DE RISCO

Toda a ação possui dois tipos de risco, uma parte é diversificável, a outra não; a parcela de risco diversificável não possui contrapartida de retorno na relação risco x retorno. Os exemplos de riscos diversificáveis são vários, como o risco do CEO de uma empresa ficar doente, tirando-o da gestão da empresa e assim piorando os resultados. Se um investidor aplicou todos os seus recursos nesta empresa, ele estará exposto a este tipo de risco, no entanto, se o investidor possuir uma carteira diversificada, um evento pontual com o CEO de uma empresa não afetará o retorno da carteira, até porque certamente este evento negativo será contrabalanceado por algum evento positivo em outra empresa.

O fato importante a ser esclarecido é que quando investimos em uma empresa, a parcela de risco diversificável não possui contrapartida de retorno esperado; ou seja, se estamos dispostos a ter uma carteira de alta volatilidade, existe um conjunto de ações que propiciam um retorno superior do que se optarmos por investir em apenas uma ação de volatilidade semelhante. Visto que o preço de uma ação é definido pelas expectativas de diferentes investidores, quando é possível não incorrer em determinado risco, não há motivo para que o mesmo tenha um retorno associado.

A grande questão que temos quando buscamos a diversificação da carteira é sobre em quais ativos investir, bem como qual peso cada ação deve ter na carteira; ponto inicial para tomar esta decisão é observar a correlação entre os ativos. Diversificando a carteira em ativos que possuem correlação igual a 1 será muito provavelmente inútil, visto que estas ações tendem a se movimentar conjuntamente, seria como diversificar a carteira comprando PETR3 e PETR4.

ESTRATÉGIAS DE ALOCAÇÃO DE ATIVOS

Diferentes abordagens de diversificação podem ser utilizadas, desde elementares, até abordagens mais complexas. Uma forma bastante simples e intuitiva é simplesmente aplicar montantes iguais em diferentes ativos, a qual pode ser chamada de “1/n”, pois em cada ativo é aplicada proporção igual a 1/n, sendo n o número de ativos; em uma carteira com 10 ações, cada uma receberia 10% (1/10) do montante total investido. A vantagem de diversificar a carteira segundo esta regra é a simplicidade, pois nenhum cálculo aprofundado é necessário. No entanto, ainda que menos descomplicados, outros métodos podem ser mais eficazes.

Outra forma de se diversificar uma carteira é buscando-se a menor volatilidade possível, em carteira que pode ser chamada de “Min Var”. Nesta abordagem, se deseja simplesmente encontrar a carteira com menor volatilidade possível e, para tal, é necessário computar as volatilidades de todos os ativos, bem como as relações entre eles. Com estes dados, é possível obter a combinação de pesos que geram a carteira com menor volatilidade possível. Importante destacar que para obter a carteira de mínima variância não são necessários recursos computacionais robustos, sendo possível verificar os pesos em cada ativo por meio de programas como Excel™.

A terceira forma, ainda pouco difundida no mercado, é a paridade de risco, ou Risk Parity, que consiste em igualar a contribuição para o risco de cada ativo contido na carteira, de tal forma que ativos muito voláteis tem menor peso atribuído, enquanto ativos menos voláteis aparecem com maior relevância na carteira. A vantagem principal deste método gerar carteiras intermediárias entre as de pesos iguais e de mínima variância e, para mostrar estas diferenças, utilizo dados constantes no artigo Risk Parity in the Brazilian Market[1].

PARIDADE DE RISCO NA PRÁTICA

Em uma primeira etapa, visando exemplificar as carteiras obtidas segundo os diferentes métodos, foram utilizados os índices setoriais da BM&F Bovespa como se os mesmos fossem ativos, de tal forma que cada índice é tratado como sendo uma ação; utilizando os dados janeiro de 2008 a dezembro de 2009, foi montada uma carteira hipotética segundo as três abordagens mencionadas acima, onde a paridade de risco é representada por “RP”.

Paridade de Risco - Gráfico 1

Como pode ser facilmente verificado, a carteira de mínima variância tende a concentrar grande parte dos recursos em apenas um ativo, aquele menos volátil; a carteira 1/n diversifica o montante de maneira igualitária, enquanto a de paridade de risco é uma abordagem intermediária, tendo como vantagem o fato de que cada ativo contribui de forma semelhante para o risco total da carteira.

Neste mesmo trabalho, foram avaliadas as rentabilidades de cada abordagem; sendo que neste estudo observou-se que a carteira de mínima variância teria oferecido o maior retorno, seguido da carteira montada com base na paridade de risco, e por último, a carteira de pesos iguais (1/n).

Paridade de Risco - Gráfico 2

A comparação apenas dos retornos, no entanto, não é suficiente para um investidor tomar suas decisões, sendo necessário observar a volatilidade e o índice sharpe (relação entre retorno e volatilidade – quanto maior o sharpe, melhor). Estes dados estão igualmente disponíveis no artigo e são reproduzidos a seguir:

Paridade de Risco - Tabela 1 Paridade de Risco - Tabela 2 Paridade de Risco - Tabela 3

A análise destes resultados revela que a paridade de risco consiste em um intermediário entre as carteiras de pesos iguais e a de mínima variância, tanto em relação ao retorno, quanto ao risco e índice sharpe.

CONCLUSÃO

A análise pontual, em apenas um cenário, não é suficiente para declarar superioridade de uma abordagem sobre a outra, no entanto, alguns fatos adicionais devem ser mencionados, como a efetiva diversificação de cada abordagem. Uma forma de analisar o nível de diversificação é a observação do desvio padrão dos pesos, que nada mais é do que uma medida simples de quantificar o quão diversificada é uma carteira; a título exemplificativo, em uma carteira com 7 ativos, na qual são aplicados 14,3% em cada ativo, o desvio padrão dos pesos será zero (carteira totalmente diversificada), quanto menor a diversificação, maior o desvio padrão. A seguir, os resultados obtidos no artigo acima mencionado:

Paridade de Risco - Gráfico 3

Observando o gráfico acima, fica claro que a carteira de mínima variância é aquela que gera menor diversificação, enquanto a diversificação obtida por meio da paridade de risco é bastante alta e constante ao longo do tempo.

Como mencionado anteriormente, a análise pontual em determinado período de tempo não é suficiente para estabelecer se uma abordagem é melhor que a outra, mas é importantíssimo para que o investidor conheça as peculiaridades de cada método de otimização de carteiras. Muitas vezes, inclusive, é impossível atribuir superioridade a uma abordagem, pois cada investidor possui preferências singulares, as quais dão maior peso para diferentes aspectos.

Por fim, importante mencionar que carteiras de paridade de risco não precisam se resumir a carteiras de renda variável, podendo igualmente servir para alocação de recursos em diferentes classes de ativos. Esta abordagem é bastante utilizada na decisão de alocação de recursos entre, por exemplo, renda fixa e renda variável, na qual a proporção de recursos em cada tipo de investimento é tomada com base na contribuição ao risco de cada classe de ativos.

Gostou desse tema? Para se aprofundar mais, confira o artigo original completo sobre a Paridade de Risco no Brasil.

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Referências:

[1] de Souza, Pierre Oberson and Filomena, Tiago P. and Caldeira, João and Borenstein, Denis and Righi, Marcelo Brutti, Risk Parity in the Brazilian Market (July 8, 2017). Economics Bulletin, Volume 37, Issue 3, pages 1555-1566 . Disponível em SSRN: https://ssrn.com/abstract=3001878