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Os setores e as empresas mais arriscados

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19/05/2020

Após a hecatombe de 2020, com os mercados colapsando no mês de março e imprimindo certa recuperação em abril, ficou cada vez mais evidente a necessidade de fazer uma boa gestão de risco da carteira.

A diversificação não é somente sair “jogando” o máximo de ativo possível, como por exemplo, várias ações. É preciso também entender um pouco mais da correlação entre os ativos, mas principalmente do chamado Beta das ações.

Beta? Sim, essa leta grega nos ajuda a saber um pouco mais do risco sistêmico (ou sistemático) do ativo. E isso muda bastante de empresa para empresa e de setor para setor, sabia?

Vamos falar um pouco mais disso lá na frente, mas antes preciso apenas introduzir o conceito.

O risco sistêmico e o não sistêmico

A ideia de risco sistêmico é relativamente antiga e costuma aparecer bem no começo dos estudos de finança, certamente você pode já ter se deparado com ele.

De certa forma, sempre que você estiver investindo em um papel, ele terá implícito um risco de mercado, que quase que independe das condições da empresa que emitiu a ação.

É um risco que afeta a economia de uma forma geral e pode ter várias origens. Já percebeu como os mercados caem quando acontece algo muito grave na política, por exemplo?

Pois é, isso afeta as ações de uma forma generalizada e não importa a quantidade de ações que você tem na carteira, possivelmente todas irão “sofrer”.

Por outro lado, há um risco não sistêmico, que justamente responde à empresa ou setor específico. A grande vantagem é que eles podem ser reduzidos na sua carteira.

Abaixo temos um exemplo didático. Quanto mais ações você tiver na sua carteira, de empresas e setores diferentes, mais você consegue reduzir o risco não sistêmico. Se uma notícia é ruim para o setor de varejo (por exemplo o juro), talvez ela possa ser recompensada no setor financeiro.

Nesse sentido, você acaba reduzindo a volatilidade da carteira.

Claro, nem tudo são flores. Há a parte do risco sistêmico que não será reduzido com a adição de mais ações. A vantagem é que nós conseguimos ter uma boa ideia do que seria esse risco para cada empresa, cada setor.

É aí que entra o Beta. Ele mensura o quanto a ação varia em relação ao benchmark (no nosso caso, o Ibovespa). Em outras palavras, se o Beta for superior a 1, quer dizer que a ação é mais volátil, ou seja, em tempos bons, ela renderá mais, mas em tempos ruins, tenderá a sofrer mais também. Se for menor que 1, temos a situação contrária.

É usual chamarmos ações com beta abaixo de 1 de “defensivas” e acima de 1 as mais “agressivas”. As que são muito próximas de 1 são as “neutras”. Para saber como ele é calculado, recomendo esse nosso artigo aqui.


Os riscos por empresas no Brasil

Agora que você entendeu que essa parte do risco, você saberia dizer quais são as empresas mais agressivas ou defensivas da nossa bolsa?

Talvez o momento de alta volatilidade seja importante você conhecer um pouco mais desses números.

Não por acaso, quando temos momentos de estresse, os analisas e investidores mais experiente costumam “correr” para setores e empresas mais defensivas (isso quando decidem por alterar a carteira e/ou seguir na renda variável), para conseguirem passar a maré brava de uma forma um pouco mais tranquila.

Abaixo temos uma lista para você conferir o que seria o Beta dos últimos 24 meses das principais empresas do nosso Ibovespa.

O período é relativamente interessante por que ele compreende um ano bastante positivo (o bull market de 2019) e outro bem volátil (o atual, reflexo do COVID).

Dessa forma, fica bastante transparente quais são as empresas mais voláteis e que sofrem com a parcela do risco sistêmico.

Alguma surpresa positiva ou negativa? Essas mais de 60 empresas representam cerca de 97% do Ibovespa e cerca de 40% delas tem um Beta superior a 1.

Os riscos por setor em empresas

Talvez você conheça boa parte dessas empresas e aposto que a maioria delas está acima de 1. Mas e se pensarmos por setor?

Ai a conversa fica ainda mais interessante. No gráfico abaixo mostramos quais são os setores mais voláteis da bolsa, que podem ter uma boa performance em períodos de bonança, de economia e consumo crescendo.

Veja como setores ligados ao Comércio, viagens e transportes tem uma média de beta bastante superior a 1.

Empresas aéreas e de varejo tendem a sofrer bastante em momento de crise e estamos vendo isso na prática. Por outro lado, os famosos setores de energia elétrica, saúde, seguros e telecomunicações podem ser mais resilientes em momentos adversos.

Você já tinha se preocupado com isso? A seleção de empresas e setores pode exigir do investidor uma investigação as vezes mais minuciosa do que ele está acostumado.

Consequências de um Beta maior em 2020

Tivemos recentemente em 2020 uma aula do que acontece com os setores mais agressivos durante período de forte volatilidade, onde o risco sistêmico tira suas garras para fora.

No gráfico abaixo estamos vendo justamente a relação entre o Beta dos últimos 24 meses de mais de 60 empresas do Ibovespa e o seu retorno acumulado em 12 meses.

Os que apresentam o retorno mais negativo também apresentam o maior beta. A velha história do risco e retorno, só que as vezes o risco se concretiza, né? 

Claro, há sempre os pontos fora da curva, os outliers. Destaquei um deles, que vem chamando atenção há alguns anos e está na mesma situação nesse momento.

Esse é mais um dos feitos da MGLU3, empresa ligada ao comércio. Não canso de me surpreender com essa ação.

Conclusão

É realmente difícil lidar com esse tipo de risco específico na carteira e todo investidor deveria gastar um pouco mais de atenção nisso.

Ter uma carteira de ações recheada de empresas com beta superiores a 1 pode até reduzir um pouco mais do seu risco não sistemático, mas a parte sistêmica pode te “derrubar do cavalo” de forma bem feia em momentos de estresse.

Talvez alguns tenham aprendido essa lição da forma mais dura em 2020. Certamente buscarão entender mais como lidar com ações mais defensivas, qual melhor hora de tê-las na carteira. Possivelmente ações mais neutras ou defensivas, mas que pagam bons dividendos podem ser interessantes, não?

Além disso, caso você procure técnicas de gestão mais avançadas, há os famosos Beta Hedging, que tentam minimizar o efeito desses riscos, mas exigem um conhecimento muito maior por parte do investidor. Podemos abordar esse assunto numa próxima xícara de café.

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Sobre o autor

  • Arthur Lula Mota
  • Economista, já atuou no mercado financeiro e em departamento econômico, com elaboração de cenários macroeconômicos e estudos setoriais. Atualmente é Mestrando em Economia pela Universidade de São Paulo (USP) e dono de um dos maiores sites independentes de economia no Brasil – o Terraço Econômico.

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