Finanças Pessoais

É normal que uma pessoa, ao começar a se envolver no mundo dos investimentos, tente organizar alguma rotina ou estratégia de investimento de forma a ter mais comodidade nas operações, além de se adequar ao seu próprio fluxo de caixa.

Se você consegue guardar dinheiro todo mês, é possível surgir a pergunta: será que vale a pena colocar um pouquinho do meu dinheiro em investimentos todo mês? Ou será que vale mais a pena a cada dois meses? Ou um período maior?

Certamente você já escutou alguém, quando vai comprar dólar para alguma viagem, sugerindo comprar de pouco em pouco para fazer um “preço médio”.

A ideia, por vezes, pode ser aplicada para qualquer investimento.

É uma pergunta justa e não tão simples de responder. Vamos tentar enfrentar esse desafio nesse artigo, focando especificamente o caso da renda variável.

As estratégias para investir

As estratégias

A ideia aqui é conseguir colocar uma estratégia simples, que pessoas comuns conseguiriam reproduzir, mesmo com suas próprias limitações financeiras.

Vamos testar 5 frequências diferentes de investimento: a cada um mês, dois, três, quatro ou seis meses. A ideia é que a cada vez que tivermos um investimento, serão alocados exatamente R$ 1.000,00 por operação, o que fica mais perto da realidade de uma pessoa comum, mas que eventualmente consegue reunir esse dinheiro em um mês ou só em seis meses (o que daria cerca de R$ 166,00 por mês).

Até aqui tudo bem, mas investir em que ativo? Nesse exercício vamos brincar com a renda variável, mas não vamos selecionar nenhuma ação de empresa. A ideia é poder investir no Ibovespa, por meio de uma ETF conhecida como BOVA11.

Não sabe o que é isso? Veja em “O que é ETF: Como Investir na Bolsa de Valores”, embora prefira dar uma rápida explicação: é um ativo que replica exatamente a evolução do Ibovespa, principal índice do mercado acionário brasileiro, representando as maiores e mais negociadas empresas de toda a bolsa.

Vamos então fazer os 5 cenários para investimentos no BOVA11 desde o fim de 2008. Qual razão para esse período? É que esse ativo começou a ser negociado apenas 28/11/2008.

Considerando então cenários em que teriam sido investidos R$ 1.000,00 em cada uma dessas frequências, desde o início do ano, com preço de final de mês (preço de fechamento do mês e período em que as pessoas costumam receber o suado salário).

Desta forma, a evolução de cada carteira seria a seguinte:

Esse primeiro gráfico é apenas para mostrar o óbvio: a pessoa que investir todo mês R$ 1.000,00 vai chegar em maio de 2019 com uma carteira muito maior do que aquelas que investiram a cada 2, 3, 4 ou 6 meses. Obviamente ele terá colocado muito mais dinheiro que essas pessoas, e por isso sua carteira será maior.

Mas não é isso que importa, visto que no limite você pode colocar R$ 1.000,00 por dia e superar a carteira de quem coloca por mês. O que importa é a rentabilidade acumulada no período e será que faz muita diferença de cenário para cenário?

Para calcular a rentabilidade acumulada, vamos colocar um custo por operação. A pessoa que investe mensalmente gastará muito mais com corretagem, emolumentos, liquidação e outros custos de operação do que uma pessoa que opera a cada 6 meses.

Considerando o mesmo custo médio de operação para os cenários, a evolução da rentabilidade entre o fim de 2008 e 2019 seria a seguinte:

Difícil ver diferença, certo? Mesmo que o volume em cada carteira seja diferente, a rentabilidade não mudou muito. Mas vamos olhar o resultado final, do último mês, o de maio de 2019. A tabela abaixo mostra que o investidor que comprou de 6 em 6 meses (ou seja, juntou os R$ 166,00 por mês e investiu os R$ 1.000,00) teria conseguido acumular uma rentabilidade melhor entre esse período.

A pessoa que atuou mensalmente teria apresentado o menor dos desempenhos, embora muito próximo dos demais.

É o justo o leitor se perguntar: terá a crise influenciado nesse resultado? Será que o investidor mensal se prejudicou durante o período da crise econômica entre 2014 e 2016? Pensando nessa justa pergunta, também simulamos o mesmo exercício para a situação em que os aportes começariam a partir de 2017.

Desta forma, tiraríamos qualquer eventual efeito da crise nos cenários e ficaríamos apenas com um cenário de Bull Market em que, por intuição, poderíamos pensar que investir mensalmente seria também a melhor estratégia. Será? Veja abaixo.

Os números mostram que não. Apesar de toda volatilidade ao longo do processo, novamente aquela pessoa que comprou de 6 em 6 meses mostrou uma performance melhor, em termos de rentabilidade, mesmo durante o período de forte Bull Market. A diferença entre o investidor de 6 meses e o mensal chega a quase 10 p.p. no período analisado, mas os demais cenários ficam por ali, muito próximos.

Não é preciso dizer que o investidor mensal terá uma carteira muito maior do que a do investidor de 6 meses, apenas por conta da frequência de aportes.

Conclusão

O leitor que chegou até aqui deve entender o texto como recomendação? Não. Veja que nós ilustramos bem o passado, abarcando momentos de crises e booms, um período cheio de oportunidades. A bem da verdade é que dificilmente você conseguirá seguir uma regra tão formal assim por tanto tempo, e talvez intercale entre uma e outra dependendo de sua condição financeira e disponibilidade de recursos.

Além disso, grosso modo, a diferença nos cenários que considera de 2008 até 2019, ou seja, mais de 10 anos, não foi tão grande, o que pode tranquilizar o leitor na hora de estabelecer algum tipo de estratégia para os seus investimentos ao longo do ano.

Por fim, cabe destacar que esse é apenas um dos exercícios para avaliar esses cenários, seria possível colocar períodos intermediários (45 dias, por exemplo), também sendo importante ressaltar que essas é uma simplificação da realidade, que pode apresentar custos e situações mais complexas do que esse simulação representativa.

Imagem do autor

Economista, já atuou no mercado financeiro e em departamento econômico, com elaboração de cenários macroeconômicos e estudos setoriais. Atualmente é Mestrando em Economia pela Universidade de São Paulo (USP) e dono de um dos maiores sites independentes de economia no Brasil – o Terraço Econômico.

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