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Investir todo mês? A cada quanto tempo?

Por:
27/05/2019

É normal que uma pessoa, ao começar a se envolver no mundo dos investimentos, tente organizar alguma rotina ou estratégia de investimento de forma a ter mais comodidade nas operações, além de se adequar ao seu próprio fluxo de caixa.

Se você consegue guardar dinheiro todo mês, é possível surgir a pergunta: será que vale a pena colocar um pouquinho do meu dinheiro em investimentos todo mês? Ou será que vale mais a pena a cada dois meses? Ou um período maior?

Certamente você já escutou alguém, quando vai comprar dólar para alguma viagem, sugerindo comprar de pouco em pouco para fazer um “preço médio”.

A ideia, por vezes, pode ser aplicada para qualquer investimento.

É uma pergunta justa e não tão simples de responder. Vamos tentar enfrentar esse desafio nesse artigo, focando especificamente o caso da renda variável.

As estratégias

As estratégias

A ideia aqui é conseguir colocar uma estratégia simples, que pessoas comuns conseguiriam reproduzir, mesmo com suas próprias limitações financeiras.

Vamos testar 5 frequências diferentes de investimento: a cada um mês, dois, três, quatro ou seis meses. A ideia é que a cada vez que tivermos um investimento, serão alocados exatamente R$ 1.000,00 por operação, o que fica mais perto da realidade de uma pessoa comum, mas que eventualmente consegue reunir esse dinheiro em um mês ou só em seis meses (o que daria cerca de R$ 166,00 por mês).

Até aqui tudo bem, mas investir em que ativo? Nesse exercício vamos brincar com a renda variável, mas não vamos selecionar nenhuma ação de empresa. A ideia é poder investir no Ibovespa, por meio de uma ETF conhecida como BOVA11.

Não sabe o que é isso? Veja em “O que é ETF: Como Investir na Bolsa de Valores”, embora prefira dar uma rápida explicação: é um ativo que replica exatamente a evolução do Ibovespa, principal índice do mercado acionário brasileiro, representando as maiores e mais negociadas empresas de toda a bolsa.

Vamos então fazer os 5 cenários para investimentos no BOVA11 desde o fim de 2008. Qual razão para esse período? É que esse ativo começou a ser negociado apenas 28/11/2008.

Considerando então cenários em que teriam sido investidos R$ 1.000,00 em cada uma dessas frequências, desde o início do ano, com preço de final de mês (preço de fechamento do mês e período em que as pessoas costumam receber o suado salário).

Desta forma, a evolução de cada carteira seria a seguinte:

Esse primeiro gráfico é apenas para mostrar o óbvio: a pessoa que investir todo mês R$ 1.000,00 vai chegar em maio de 2019 com uma carteira muito maior do que aquelas que investiram a cada 2, 3, 4 ou 6 meses. Obviamente ele terá colocado muito mais dinheiro que essas pessoas, e por isso sua carteira será maior.

Mas não é isso que importa, visto que no limite você pode colocar R$ 1.000,00 por dia e superar a carteira de quem coloca por mês. O que importa é a rentabilidade acumulada no período e será que faz muita diferença de cenário para cenário?

Para calcular a rentabilidade acumulada, vamos colocar um custo por operação. A pessoa que investe mensalmente gastará muito mais com corretagem, emolumentos, liquidação e outros custos de operação do que uma pessoa que opera a cada 6 meses.

Considerando o mesmo custo médio de operação para os cenários, a evolução da rentabilidade entre o fim de 2008 e 2019 seria a seguinte:

Difícil ver diferença, certo? Mesmo que o volume em cada carteira seja diferente, a rentabilidade não mudou muito. Mas vamos olhar o resultado final, do último mês, o de maio de 2019. A tabela abaixo mostra que o investidor que comprou de 6 em 6 meses (ou seja, juntou os R$ 166,00 por mês e investiu os R$ 1.000,00) teria conseguido acumular uma rentabilidade melhor entre esse período.

A pessoa que atuou mensalmente teria apresentado o menor dos desempenhos, embora muito próximo dos demais.

É o justo o leitor se perguntar: terá a crise influenciado nesse resultado? Será que o investidor mensal se prejudicou durante o período da crise econômica entre 2014 e 2016? Pensando nessa justa pergunta, também simulamos o mesmo exercício para a situação em que os aportes começariam a partir de 2017.

Desta forma, tiraríamos qualquer eventual efeito da crise nos cenários e ficaríamos apenas com um cenário de Bull Market em que, por intuição, poderíamos pensar que investir mensalmente seria também a melhor estratégia. Será? Veja abaixo.

Os números mostram que não. Apesar de toda volatilidade ao longo do processo, novamente aquela pessoa que comprou de 6 em 6 meses mostrou uma performance melhor, em termos de rentabilidade, mesmo durante o período de forte Bull Market. A diferença entre o investidor de 6 meses e o mensal chega a quase 10 p.p. no período analisado, mas os demais cenários ficam por ali, muito próximos.

Não é preciso dizer que o investidor mensal terá uma carteira muito maior do que a do investidor de 6 meses, apenas por conta da frequência de aportes.


Conclusão

O leitor que chegou até aqui deve entender o texto como recomendação? Não. Veja que nós ilustramos bem o passado, abarcando momentos de crises e booms, um período cheio de oportunidades. A bem da verdade é que dificilmente você conseguirá seguir uma regra tão formal assim por tanto tempo, e talvez intercale entre uma e outra dependendo de sua condição financeira e disponibilidade de recursos.

Além disso, grosso modo, a diferença nos cenários que considera de 2008 até 2019, ou seja, mais de 10 anos, não foi tão grande, o que pode tranquilizar o leitor na hora de estabelecer algum tipo de estratégia para os seus investimentos ao longo do ano.

Por fim, cabe destacar que esse é apenas um dos exercícios para avaliar esses cenários, seria possível colocar períodos intermediários (45 dias, por exemplo), também sendo importante ressaltar que essas é uma simplificação da realidade, que pode apresentar custos e situações mais complexas do que esse simulação representativa.

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Sobre o autor

  • Arthur Lula Mota
  • Economista, já atuou no mercado financeiro e em departamento econômico, com elaboração de cenários macroeconômicos e estudos setoriais. Atualmente é Mestrando em Economia pela Universidade de São Paulo (USP) e dono de um dos maiores sites independentes de economia no Brasil – o Terraço Econômico.

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2 Comentários

  • Avatar daniel disse:

    A corretagem que vocês usaram foi de quanto? Acho que investimento de 166 por mês a corretagem com certeza vai impactar bastante. Vocês poderiam fazer essa simulação sem a taxa de corretagem (já que algumas corretores estão zerando essa taxa). Acho que a simulação ficou bastante distorcida da realidade por causa da taxa de corretagem muito alta se comparada a aportes de apenas 166. Att,

    • Avatar Arthur Mota disse:

      Olá Daniel! Obrigado pela leitura.

      Não usamos aportes de 166 em nenhum momento, apenas de 1.000 como deixamos claro no texto. Esse foi apenas um exemplo do quanto uma pessoa deveria juntar mensalmente para atingir tal quantia. Além do mais, não há só corretagem nos custos, há demais custos operacionais e que inclusive não dependem da política das corretoras.

      Foi apenas um exercício, com toda sua simplicidade e limitações, mas para mostrar que não seriam gritantes as diferenças entre cada estratégia proposta.

      Abraços!