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Empresas gigantes que não geram lucro

Por:
05/03/2020

Quem diria na virada do século que dentre as maiores empresas do mundo, teríamos algumas que não geram lucro e nem por isso estão à beira da falência? Pois é, surpreendentemente existem centenas de grandes empresas por aí, avaliadas em bilhões, mas sem gerar a máxima do capitalismo, o santo graal: o bom e velho lucro.

Por exemplo, sou um entusiasta de redes sociais como o Twitter (procure pela FinTwit brasileira!), que facilita muito a comunicação entre membros de uma mesma comunidade e de forma bastante rápida, além de trazer as notícias de uma forma mais rápida. Mas você sabia que a empresa ficou mais de uma década sem apresentar lucro?

Sim, o Twitter teve seu primeiro ano de lucro em 2018, após 12 anos de história. Consegue imaginar uma empresa rodando 12 anos sem lucro? Tempos curiosos.

Sabe o que é mais curioso? O estudo “Searching for Validation: An analysis of valuation performance for $1 billion+ VC-backed exits” mostra que de todas as empresas que abriram capital nas bolsas americanas em 2018, as empresas não lucrativas foram mais bem avaliadas do que aquelas lucrativas.

Cerca de 64% do conjunto das empresas não eram rentáveis do ponto de vista do EBITDA, principalmente pelo estágio no ciclo de vida em que apresentam uma maior prioridade pelo crescimento sobre a lucratividade.

Esse tipo de situação não ocorre por acaso e é reflexo de um cenário de larga liquidez internacional, com capital abundante por conta de políticas monetárias ultra expansionistas por parte dos Bancos Centrais nos últimos anos. A chuva de dinheiro foi em busca de tudo quanto é ativo exótico, desde títulos com juros negativos até empresas que não geram lucros.

Abaixo o resultado de um levantamento feito no final de 2019 pelo professor Jay R. Ritter da Universidade da Florida envolvendo IPOs de empresas do ramo de tecnologia. O nível de IPOs de empresas não lucrativas está muito próximo daquele visto durante a bolha de tecnologia na virada do século, o que não significa que corremos o mesmo risco.

Outro ponto interessante é que a idade média dessas empresas que abriram capital também está crescendo. Empresas não lucrativas com mais de uma década de existência e fazendo grandes IPOs com elevado valor de mercado.

Vale destacar também que além de um crescente aumento de empresas com mais de uma década sem lucro abrindo capital, o número de anos necessários para apresentar um EBITDA positivo após abrir capital também está aumentando. Mais de 55% das empresas estão registrando resultados positivos após 4 anos.

Como tudo isso é possível? Como empresas gigantes não geram lucro?

O rápido crescimento do setor de tecnologia é uma das razões pelas quais os investidores estão dispostos a investir seu dinheiro em empresas não lucrativas, já que muitos acionistas valorizam o crescimento e tendem a se sentir mais confortáveis, mesmo que as empresas não estejam mostrando grandes margens.

De forma simplista, existem três maneiras pelas quais as grandes empresas sobrevivem sem lucro.

Primeiramente o reinvestimento, visto que empresas apresentam elevados ganhos, mas escolhem alocar a maior parte de suas receitas nos negócios para continuar impulsionando o crescimento, e não redistribuir ou apresentar como lucro.

Podemos destacar também as expansões de negócios, com aquisição de novas empresas para conquistar uma presença maior de mercado.

Por fim, a elevada taxa de crescimento salta aos olhos dos investidores, mostrando promessas incríveis em seus estágios iniciais e garantindo o financiamento. Podemos destacar o caso do Uber, visto que avaliação de mercado estimada da Uber é incrivelmente alta, excedendo a avaliação de companhias mais consolidadas e lucrativas. Isso é motivado pela confiança no Uber e pela aceitação das expectativas de seu elevado crescimento.

Essas estratégias nem sempre são tomadas por questão de genialidade de seus CEOs, mas sim pela forte competição de seus mercados. Numa selva de tecnologia, ou você continua investindo e desenvolvendo dia após dia, ou está fora do jogo na próxima rodada.


Conclusão

É mais difícil você, investidor brasileiro, ter mais contato com esse tipo de empresa, mas vamos pensar: por que você continuaria investindo nessas empresas? Isso depende de quanto você confia nos modelos de crescimento que mantêm os (altos) preços das ações e se as empresas em questão atingirão seus objetivos, sejam eles quais forem.

Nada muito diferente das outras empresas, ainda que seja necessário avaliá-las por outras óticas. Por exemplo, as relações P/E (ou price-to-earnings) não têm significado se não houver lucro, certo? Então é mais usual avaliar esse tipo de empresa pelo P/S (ou price-to-sales), ou seja, o preço do ativo em relação as suas receitas/vendas.

Assim como o Twitter, uma empresa pode sobreviver sem lucros e você pode ganhar dinheiro com ações dessas empresas, mas esse é um jogo complexo e é preciso garantir a melhor compreensão das razões subjacentes à falta de lucros e à quantidade de risco que você está assumindo com seu investimento. Hoje elas estão assim, mas e daqui 5 ou 10 anos?

Afora as incertezas e oportunidades de se investir em empresas gigantescas, mas sem lucro, vale a pena nos perguntarmos: Qual a possível origem e sustentação dessas novas empresas, além de outras de tamanho relativamente menor, e quais os reais riscos?

O leitor já teve alguns spoilers durante o texto: o aumento da liquidez global por conta da farta injeção monetária por parte dos bancos centrais, mas com riscos de (ainda que hoje pouco provável à luz do nosso conhecimento) de algumas bolhas sendo nutridas. 

Esse é um assunto que merece uma nova conversa, pois mesmo envolvendo empresas que o investidor brasileiro ainda tem pouco acesso, impactos positivos e negativos podem ganhar escala global nos mercados. Abordaremos esse assunto numa oportunidade futura.

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Sobre o autor

  • Arthur Lula Mota
  • Economista, já atuou no mercado financeiro e em departamento econômico, com elaboração de cenários macroeconômicos e estudos setoriais. Atualmente é Mestrando em Economia pela Universidade de São Paulo (USP) e dono de um dos maiores sites independentes de economia no Brasil – o Terraço Econômico.

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