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A 2ª década perdida

Por:
17/05/2019

O que está acontecendo?

O Brasil crescerá em torno de 1% pelo 3º ano seguido. Depois de enfrentar duas quedas consecutivas de 3,5% em 2015-16, não é exatamente uma recuperação invejável.

Na história recente brasileira, a média de crescimento pós-recessão foi de 4,2%, enquanto que, neste ciclo, estamos testemunhando uma taxa ao redor de 1%.

O gráfico acima é chocante per se. Existem inúmeros motivos conjunturais para tentar explicar resultado tão pífio do lado da demanda, como a nova desaceleração da Argentina, greve dos caminhoneiros, freio de mão por conta das incertezas eleitorais, lava jato, contração dos recursos parafiscais do BNDES, etc. Mas, o corolário desse gráfico é ainda pior.

Como aprendemos em Economia 101, se a demanda está crescendo acima da oferta, o preço sobe. O inverso é verdadeiro. Portanto, o desvio da inflação em relação à meta pode nos ser útil para descobrirmos se estamos crescendo mais ou menos do que nosso potencial.

A análise da taxa de desemprego também poderia ser útil, mas nesse caso, existem outras forças independentes do ciclo econômico que podem mover a oferta de mão de obra, principalmente aquela fração que está à margem da PEA e decidiu voltar a procurar emprego. Isso afetaria o desemprego sem ter um sinal inequívoco sobre o PIB vs. o potencial.

Fiquemos com a inflação. Como disse acima, e a literatura econômica é recheada de evidências, se o hiato está aberto (PIB efetivo > PIB potencial), a inflação deve subir em relação à meta (lembram-se da lição de Economia 101?). O inverso é verdadeiro. Podemos usar teses sobre fricções e rigidez de preços para questionar alguns casos em que isso não ocorre, mas deixaria o tema mais complexo e fugiria ao escopo desse artigo.

Ao longo do período da recessão de 2015-16, a parte da inflação mais sensível ao ciclo econômico simplesmente desabou. Saiu do patamar de 9-10% para 3%. O IPCA não teve um comportamento tão longe, saindo da faixa de 11%, minguando abaixo de 3% e mais recentemente voltando para o patamar de 4%.

A análise sobre a taxa de inflação nesse período de crescimento pífio (2016-2018) diz muito sobre as entranhas da economia brasileira. Para simplificar, ir direto ao ponto e expurgar alguns choques que ocorreram nesse triênio, vou ignorar que a inflação veio abaixo de 3% e que voltou a bater 4,5%. Na média ficou em torno de 3,7%. Portanto, sensivelmente abaixo da meta de 4,5% (ou mesmo de 4,25%).

Vamos parar pra pensar. Se a demanda no Brasil cresceu tão pouco, porque a inflação não continuou caindo? Porque ela caiu até a faixa dos 3,5% e ficou? Se quiser ser detalhista, porque ela cedeu até os 3% e depois voltou pra perto dos 4% mesmo com a demanda tão fraca?

Nossa tese é: a economia brasileira abriu um hiato de cerca de 4-4,5% nos últimos 5 anos, com forte destruição de capital físico, humano e tecnológico. E o resultado disso é uma queda da taxa de crescimento do produto potencial da economia para cerca de 1-1,5%. Portanto, estamos crescendo nesse triênio exatamente o nosso potencial, o que faz com que a inflação pare de se distanciar da sua meta (repare no gráfico como tivemos uma fortíssima desaceleração da inflação e ela parou de se distanciar da meta ali pelo final de 2017), mas tampouco tenha forças para voltar para a mesma uma vez que aquele hiato aberto nunca mais foi fechado. A derivada do hiato importa, mas o nível também importa.

Para responder a pergunta inicial do artigo, “o que está acontecendo?”, a resposta é simples: Nada. Estamos apenas seguindo a trajetória do que é possível, dadas as nossas possibilidades físicas e humanas. Não é mais possível crescer, como em outrora, na base do estímulo de demanda e do uso dos recursos disponíveis de maneira artificial. A China tampouco será fonte adicional de surpresas positivas.

Para não termos a 3ª década perdida em 50 anos, precisamos de muitas reformas do lado da oferta. Do jeito que está, continuaremos batendo a cabeça no teto, que está cada vez mais baixo ou poderemos até voltar a crescer com a morfina dos estímulos públicos e o resultado é um velho conhecido que não morreu, mas está hibernando, a inflação.

Importante: As opiniões contidas nesse artigo são do autor do texto e não necessariamente refletem a opinião do Mais Retorno.

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Sobre o autor

  • Ivo Chermont
  • Economista com ampla experiência na indústria de Asset Management, iniciou a carreira no Modal Asset, sendo responsável pela cobertura da economia internacional, com ênfase em Estados Unidos. Posteriormente, foi economista da área internacional da Itaú Asset, onde além da cobertura de indicadores globais, teve foco especial em Europa. Foi também sócio e economista-chefe da Kyros Investimentos e sócio e economista-chefe da Itaim Asset Management. É Economista-Chefe da Quantitas desde 2016. Graduado em Ciências Econômicas pela PUC-RJ e Mestre em Economia pela UFRJ.Contato

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